Por que gostamos tanto de reality shows ?

O reality show mais popular da televisão brasileira, o icônico BIG BROTHER BRASIL (BBB), está em sua vigésima quarta edição. Embora, não tenha o mesmo alcance de antigamente, ainda é um campeão de audiência, alcançando cerca de 70 milhões de brasileiros, somente na primeira semana. Agora a grande questão é : por que esse programa continua fazendo parte do cotidiano nacional e inspirando outros reality shows?


Origem 

Para entender o espaço que esse tipo de espetáculo ocupa, no cotidiano da nação, é necessário regredir a origem de tudo. O termo big brother é oriundo do romance distópico `` 1984´´ , escrito por George Orwell. Na narrativa, o autor nós apresenta  um futuro, no qual o governo, simbolizado pelo big brother, subjuga a população por meio da punição e do controle de informações. Nesse contexto, as teletelas, câmeras utilizadas para espionar os cidadãos, são instaladas em todas as casas e nos locais públicos com intuito de assegurar o bom comportamento dos cidadãos e garantir retaliação aos rebeldes.

Gostamos de controle 

Agora que sabemos de onde surgiu o conceito que engloba todos os reality shows, resta entendermos o porquê gostamos de consumir esses produtos. Em primeira análise, salienta- se que gostar de ter as coisas sob controle não é ruim, pelo contrário, nosso corpo sente essa necessidade, pois ao decorrer da evolução humana estar em constante estado de vigia garantia a sobrevivência. Assim, assistir esses programas desperta na mente humana uma sensação de prazer, afinal quem não gosta de brincar de Deus e decidir o enredo e futuro de pessoas. Também, sob tal ótica, destaca- se o sucesso de jogos de  role- playing game, nos quais os jogadores assumem o papel dos protagonistas, provando, mais uma vez ,como a sociedade realmente ama fingir que está no controle de tudo.

O pão e circo

Durante momentos de crise do império romano, os imperadores e a elite aplicavam a política do pão e circo, usando o coliseu para sediar atrações, lutas, excursões e distribuindo comida. consequentemente, isso desviava o foco dos cidadãos  dos problemas das metrópoles. Hodiernamente, essa prática continua vigorando na sociedade, sendo os reality shows uma espécie de barganha que a mídia vende para distanciar o povo  dos infortúnios reais. Além desses programas, outras ferramentas, como o esporte e a música, também assumem esse papel.

O patrocínio

Para manter qualquer programa de televisão há uma vasta gama de patrocinadores, os quais são responsáveis por ditar a moda e as tendências da sociedade. No livro `` Jogos vorazes ́ ́ , escrito por Suzanne collins, acompanhamos o cotidiano de Panem, um país fictício, governado por um ditador, o qual obriga o povo a participar de um massacre anual. Ao decorrer do romance é possível identificar como tudo que é usado pelos tributos torna-se moda, dessa maneira, investir nos massacres é algo que movimenta o capital financeiro do país, enriquecendo uma pequena parcela social. Semelhante à ficção, o patrocínio investe alto para atrair os telespectadores e garantir mais lucro e fama para suas marcas e empresas, por isso tudo que é realizado dentro desse programas tem a intenção de vender produtos e nós, como consumidores, temos a necessidade de acompanhar as tendências e, mesmo que tentemos nos distanciar desses realitys , somos compelidos pelas redes sociais, as quais também lucram e investem nesses programas.

 Identificação com a realidade

Outrossim, destaca -se como a televisão propaga um estereótipo de beleza que consiste em corpos perfeitos, cabelos impecáveis e rostos angelicais. Todavia, dentro dos reality shows encontramos pessoas que têm perfil corporal normal, indivíduos com histórias de vida semelhantes às do público. Essa identificação entre integrantes dos reality shows e os telespectadores é um fator que gera empatia, ranço, amor ou ódio, sendo tais sentimentos  responsáveis por transformar a experiência de assistir ao programa em algo mais intimista e pessoal. A realidade, na verdade, é que nós nos enxergamos representados dentro dos reality shows. 

sofrimento alheio

Segundo a obra `` Vigiar e punir´´, escrita por Michel Foucault, os castigos públicos são como entretenimento para a população. De maneira análoga, ressalta-se como os reality shows são programados para gerar brigas e discussões, isso porque a sociedade gosta de ver o sofrimento alheio. Por conseguinte, os maiores picos de audiência desses programas são registrados durante brigas ou momentos de tristeza profunda dos participantes. Em resumo, gostamos de ver o circo pegar fogo, e isso é natural, pois fomos submetidos a essa condição desde a tênue idade, fato que pode ser confirmado pelos acidentes automobilísticos, os quais são um espetáculo para os curiosos, e pelas vizinhas fofoqueiras que adoram saber das desgraças alheias

.


Considerações finais 

Conclui-se, portanto, que os reality shows fazem parte do cotidiano do brasileiro, porque são algo estrutural. Eles tornaram-se espetáculos que mexem com o imaginário e com a realidade dos cidadãos, aflorando instintos oriundos da evolução humana, sendo formas de atenuar as problemáticas hodiernas da nação, promovendo tendências e causando identificação e desencadeando o lado sombrio dos homens.



Comentários